Toda geração vai sempre um pouco além do que a outra foi – Pr. Jorge Baptista

Jorge Baptista Liberdade Neto é o líder e fundador da Igreja Adonai Evangélica Pentecostal Internacional. É para geração actual de jovens pastores e pregadores do evangelho uma referência quase que “obrigatória”. Abriu-nos o coração e a porta do seu templo para um assunto muito ensinado nos últimos tempos, liderança.

Revista Supremo – Como foi o seu começo no evangelho?

Jorge Baptista – Quando o evangelho nasceu em mim comecei a focar-me na pregação porque eu percebi cedo que Deus me tinha chamado para pregar e ensinar. Na nossa comunidade de fé essa vocação começou a despontar aos olhos nossos líderes e passei a ser chamado para liderar. 

Comecei na escola dominical, mesmo não sendo professor titular por ter um entendimento razoável o professor já tinha essa percepção que eu estava um pouco acima da média no que a escritura diz respeito. Por isso dava-me a oportunidade, não só a mim, mas também a mulher que seria futuramente minha esposa. Cresci e também me tornei líder de jovens da minha congregação pertencente ao Ministério Cafarnaum.

Antes de eu me ver como líder eu só era um pregador e um ensinador do evangelho. Por ver os dramas dos líderes eu dizia “eu não posso ser pastor a liderar, estou bem como pregador”. 

Eu só queria espaço para pregar e ensinar porque essa era a minha praia. Na verdade, não era apenas isso que Deus tinha reservado para mim. Eu sou grato a Deus e ao homem que me levou ao sagrado ministério, que é o Reverendo Francisco Domingos Sebastião. Sei que naturalmente ninguém faz isso sem ver em nós que existe esse chamado.

R.S – Hoje há uma nova geração de líderes, o que tem a dizer?

J.B –Não é fácil porque as instituições religiosas são por natureza muito conservadoras e o conservadorismo muitas vezes tende a ser muito mais fechado do que aberto. 

Mas há líderes a quem Deus dá a graça de levantar outros líderes como o caso do meu pastor, o Rev. Francisco Sebastião, embora eu tive outros pastores, mas na igreja mãe foi um dos primeiros pastores que começou a ordenar ao sagrado ministério jovens. 

Isso foi numa altura em que ainda havia alguma resistência em ordenar jovens ao ministério. De lá para cá houve uma explosão de muitos jovens a liderar igrejas, ministérios e organizações para eclesiásticas.

Eu tenho um conceito de liderança no plano espiritual que me leva a pensar o seguinte: É fácil nos perdermos. Toda a geração vai sempre um pouco além do que a outra geração foi. Segundo, toda geração leva sempre para si algo que é da geração anteriorEsses dois elementos devem ser sempre bem percebidos senão vai existir conflitos de gerações e de lideranças que é algo visível. 

Porque a geração que nos cede espaço ela as vezes não entende que a outra geração vai um pouco mais além da que ela foi. 

Não podemos impor a outra geração que ela seja totalmente como nós fomos, é daí que surge o conflito. Há quem afirma que essa geração é muito moderna, inovadora, quer estragar, mas o que as vezes nós não entendemos é que a doutrina é intocável, mas a metodologia de trabalho troca-se, e ela tem que mudar mesmo. Não pode ser a mesma coisa e é aí onde há o choque.

R.S – Admite haver um choque de geração em Angola?

J.B – Sim admito. Na verdade, sempre há. Eu ouvi de um veterano líder reclamar que hoje tudo é catedral, coisas grandes, querem grandeza. Eu penso que ele estava a ver isso como um bicho de sete cabeças enquanto eu percebo que o que Deus quer que essa geração faça para impactar a sociedade também é que faça algo maior e que o glorifique até naquilo que são as estruturas.

Há alguns anos pensava-se em Angola que Igreja é para pessoas sem formação, hoje vemos que esse paradigma mudou por completo. Nós temos em nossas igrejas hoje pessoas com variadíssimas formações, colocados nos mais distintos sectores, temos governantes entrando em nossa comunidade.

Entendo também que essa geração precisa perceber que não pode mudar tudo, não pode fazer tudo diferente da outra geração. Eu falo por exemplo dos valores éticos, morais e espirituais que não podemos abandonar. Devo lhe dizer que essa geração vai fazer coisas muito maiores que a outra em termos estruturais, mas não tenho a mesma certeza se em termos morais e espirituais também será assim. Nós não podemos abrir mão dos valores espirituais e morais que os nossos pais nos legaram. É a minha opinião sobre a liderança dessa nova geração!

R.S – Falar de liderança é falar de pessoas que nasceram para ser ou de quem teve oportunidade?

J.B – Essa discussão tem sido levantada e eu percebo que há uma maneira muito unilateral de abordar essa questão. Eu entendo que os dois elementos estão presentes porque o indivíduo que nasce com esta vocação para liderar ele vai precisar de elementos externos para aprimorar, é aí onde entram as escolas. 

Podes não acreditar mas tem líderes religiosos que recusam-se em fazer curso de Teologia, porque dizem eles que a letra mata. Essa é uma interpretação de quem não entende o que lê, de quem não entende a regra hermenêutica do texto estar dentro do contexto. 

Porque no contexto podemos entender que essa letra que mata é a letra da lei, Paulo neste texto está a dizer para os judeus na igreja Coríntios que não deveriam se prender na lei de Moisés, porque a letra mata e o Espírito vivifica, não querendo dizer que a letra do conhecimento mata e ninguém deveria buscar conhecimento. Quem tem esses conceitos não vai liderar com todas as ferramentas disponíveis, logo não vai ser um líder eficaz, terá muitas limitações de percepção e compreensão. 

É necessário o talento com o qual um indivíduo nasce e as pessoas que o mentoriam, as instituições, as escolas para o capacitar. Um dos requisitos básicos para eu ordenar alguém ao ministério pastoral ou evangelista é a formação teológica, eu não quero ninguém no púlpito com “achismos”, a pessoa tem que conhecer o que ele vai falar.

Hoje falamos para uma geração que o que dissermos se não for correcto ou não lhe convence alguém fora da comunidade vai lhe ensinar, mesmo que seja no whatsap, google, youtube, e muitas vezes de forma incorrecta ou de pessoas de quem ele não devia aprender.

R.S – Tem alguns receios a liderança deste tempo?

J.B – Tenho sim! O primeiro receio é o de se cortar definitivamente o nosso cordão umbilical da anterior geração, que na ânsia de fazer coisas impactantes percamos a simplicidade da outra geração. 

Eu confesso que amo sentar com líderes que não têm a formação teológica que eu tenho, nem a capacidade de raciocínio que tenho, mas têm a história de oração e de comunhão com Deus que eu preciso e que muitas vezes não tenho. 

Meu receio é que tenhamos igrejas catedrais, mas percamos a igreja no seu ser. Vejo lentamente essa possibilidade surgir no nosso meio que é fazermos igrejas sem sermos igreja.

Outro perigo é que muitos de nós nem mesmo sabemos o que é ser cristão, logo o que fazemos pode nem ser o ideal de cristão. A primeira vez que aparece na Bíblia o nome cristão em Antioquia foi usada num sentido pejorativo, e nós hoje queremos ser aplaudidos como cristãos. A bem da verdade é que o mundo nunca nos olhará diferente de como eram vistos os cristãos de Antioquia, sempre será no sentido pejorativo.

O que mais nos assemelha a JESUS não é o sermos cristãos por derivarmos da palavra Cristo, o que nos assemelharia é sermos vistos como os do caminho como eles eram tratados, porque JESUS não era dos templos. A primeira vez que Ele entra no templo foi com chicote para protestar e repudiar, JESUS foi do caminho, das montanhas, das praias, mas o que nós queremos ser é dos templos. 

JESUS hoje teria mais dificuldade connosco porque ele estaria fora dos templos esperando que fossemos ao encontro Dele enquanto nós estaríamos dentro aguardando que Ele viesse para dentro dos nossos templos para nos sentirmos bem.

 

Outro meu receio é que não entendamos o porquê do chamado. Quem não entender o que Deus lhe deu, também não vai compreender o porquê que recebeu. Porque todo dom é para a Glória de Deus, e quem entende isso nunca usa para fins particulares.

Um líder deve ser muito sincero ao contar a sua história por causa das pessoas que ele inspira. Quando comecei a pregar o evangelho a lição que mais pratiquei foi a do quebrantamento. Todo homem que vai ser útil para Deus tem que ser quebrantado.

Entrevista : José Kundy

Foto: Ailton Silva

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