Ser Pastor não é ter fato bonito – Sadrack Lufuankenda

Sadrack Lufuankenda é uma referência da nova geração de pastores em muitas denominações. É um pregador que dispensa apresentações, porque apesar de ainda ser muito jovem já ministrou em quase todas as denominações desde evangélicas mais tradicionais às neopentecostais. Tem um carisma indiscutível e uma simplicidade bastante notória. Conheça agora a sua visão sobre a juventude e o ministério cristão.

Revista Supremo – (R. S) Qual é a primeira obrigação de um jovem que se diz chamado por DEUS? Quais os desafios?

Sadrack Lufuankenda – (S. L) Eu penso que desafios começam por ser uma palavra desafiadora também, são muitos os desafios, vou aflorar alguns que vivemos neste mundo pós-moderno. Nós herdamos dos nossos pais na fé muito bom testemunho de desafios já vencidos, e buscamos nas vitórias dos nossos pais recursos para vencermos as nossas lutas embora sejam plenamente diferentes. 

 

Os nossos desafios parecem ser mais intensos e a Bíblia é clara ao dizer que por se multiplicar a iniquidade o amor de muitos se esfriará, o que quer dizer que ao longo do tempo vão se multiplicando os desafios e se esfriando o fervor, a força, a piedade, a disciplina. Eu penso que assim como são maiores os desafios deveria também ser maior o rigor dos jovens hoje, acredito que os desafios dos nossos pais foi a medida da dedicação que tiveram também. 

 

Infelizmente penso eu que os nossos mais velhos tiveram grandes desafios e tiveram uma dedicação maior que a nossa, nós com maiores desafios temos uma dedicação abaixo da que eles tiveram, temos menos disciplina e até rigor muito abaixo do que eles tiveram e isso é um perigo que se coloca hoje. Acredito que se DEUS nos colocou nesse tempo também nos deu recursos, porque a Bíblia diz que com a tentação ELE também dá escape para que possamos suportar, e creio que o céu tem recursos de escape maiores para esse tempo, só precisamos estar disponíveis para receber isso.

Existem obreiros chamados, mas existem os chamados obreiros, é plenamente diferente. 

Uns são chamados obreiros, mas os outros são obreiros chamados e nisso difere também os desafios. Eu prefiro falar dos obreiros chamados, já que os que são chamados obreiros nem deveriam ser obreiros. Para os chamados por DEUS deveriam primeiro saber que quem os chamou é poderoso para os sustentar e nunca deveríamos ter independência de quem nos chamou, nos confiou. Essa é a primeira obrigação para nós hoje, nos conectarmos ao céu, não desconectar e nunca nos desligarmos. 

 

O desafio espiritual passa por compreender a decisão em que chegaram os apóstolos da igreja, “ Ficaremos só com o ministério da Palavra e da oração”. As vezes nos misturamos com muita coisa e ficamos perdidos, devemos entender que o obreiro chamado por DEUS deve cuidar da área espiritual.

Depois temos o desafio financeiro e hoje temos mais pastores que são mais administradores do que pastores. 

Chegou a tempo que desejamos ser líderes e fazemos o coaching, enfim, nós nos embaraçamos em tanta coisa que não sabemos como fazer a não ser clamar a DEUS que mande mais obreiros para a sua ceará. A conclusão a que chegaram os apóstolos foi: Ficaremos com a palavra e a oração. É essa a prioridade de toda a vida espiritual pelo menos daquelas igrejas que são espiritualmente saudáveis. Os obreiros precisam ter o conhecimento de que DEUS é quem concede os recursos aos chamados. 

 

Em sua palavra ELE fala connosco e pela oração nós falamos com ELE, é nessa interacção profunda que a Bíblia nos conduz aos pastos verdejantes e águas tranquilas já que Cristo é para nós a chave hermenêutica de toda a interpretação bíblica, precisamos nos ajoelhar mais para falarmos com DEUS.

 

Eu penso que os diáconos hoje deveriam entender de liderança, de administração e finanças, eles deveriam cuidar da mesa enquanto os pastores deveriam se aprofundar a uma vida de oração e da palavra de DEUS. O outro dos grandes desafios é o financeiro, as igrejas hoje precisam de finanças porque hoje quase tudo se precisa de dinheiro, mas DEUS concede recursos. Esses recursos vêm pelo caminho de muito trabalho, de muito esforço, e penso que sempre foi assim, DEUS tinha uma grande obra com Elias e lhe conduziu a recursos, uns vindos de corvos, de viúvas ou de anjos, mas desses meios vieram recursos.

R.S – Não sente que hoje esta geração se preocupa mais com os recursos do que com a espiritualidade?

 S.L – Ali é onde nós perdemos, a igreja torna-se mais uma agremiação do que uma casa de oração quando nós trocamos as prioridades. Com isso podemos até ter popularidade mas para quê? O grande exemplo que temos é o próprio mestre JESUS que em tudo foi tentado mas sem pecado, sua prioridade era uma vida intensa de oração e a Bíblia que é a palavra que Ele era diz que as “palavras que eu vos falo são espírito e vida”. 

Toda a dedicação de JESUS estava nisso, na espiritualidade, de tal maneira que mesmo ele precisando de dinheiro algumas vezes não tinha como cobrir mas os milagres vinham dar sustento, vinham abonar, por isso a Bíblia claramente nos ensina a buscar primeiro o reino dos céus e a sua justiça e as demais coisas vos serão acrescentadas. Isso não é só para o crente, mas é para o ministério também, a nossa busca intensiva deve ser o reino de DEUS.

Hoje nós vemos grandes igrejas de fora e desejamos também ser como o T.B Joshua por exemplo, mas os recursos para eles vieram depois da oração, depois da palavra. T.D Jakes antes foi um tremendo pregador antes de ter uma mega igreja, mas nós queremos aos 30 anos ter a igreja que T.D Jaques só teve aos 50, então pulamos fases. Ele deve ter filhos lá que lhe conhecem do tempo em que não tinha aquele templo e nem tinha televisão e rádio, era apenas um pregador que pregava intensamente. 

Eu penso que a pressa faz com que atropelamos os passos da caminhada e acabamos formando igrejas inflamadas ao invés de igrejas cheias. 

Uma igreja inflamada ela um dia pode explodir por qualquer problema, mas uma igreja que cresce e amadurece, que se cria com doutrina e com oração, orientação isso não acontece. Claro que as finanças são um bem necessário.

R.S – A vida familiar de um obreiro acaba sendo o reflexo do seu ministério?

S.L – O meu mestre Jorge Baptista diz que nenhum ministério justifica o fracasso de uma família, eu penso que isso é muito importante. É um dos maiores desafios na vida de um obreiro. Daví foi um grande rei para Israel, mas um péssimo pai, e isso afectou muito porque quando ele ficava em casa não tinha os filhos, tinha apenas o terraço para de lá ver Bete Seba.

 

Davi teve os piores problemas que abriram até portas a imoralidade por causa da maneira como lidou com a família. Mas ele também teve os piores exemplos de liderança familiar, porque Elí que foi o mestre de Samuel era um péssimo pai, Samuel foi péssimo pai também, logo vemos uma herança de um ministério intensamente grande e ao mesmo tempo distante do sucesso familiar. 

 

Falhar como pai não impede DEUS de te usar, mas a família vai te pesar depois, e isso até pode arrancar as forças do ministério, pode puxar o tapete. Penso que todos os dias devemos pedir por misericórdia porque na avidez e ansiedade de querermos um ministério grande não venhamos a ter uma família pequena. Devemos ter como exemplo aqueles que fizeram um grande ministério, mas também tiveram uma grande família. O meu conselho para os jovens de agora é fazer da família parte do ministério. Os filhos precisam ser parte do ministério, eles precisam estar ao lado dos pais para ver se faz. 

As minhas filhas Aniela e Zolana ainda são muito pequenas, mas eu gostaria quando elas já tiverem 5 anos começar a andar com elas onde for pregar mesmo quando não poder ir com a minha esposa. Elas aprenderem a começar a servir com água ao papá quando está a pregar para saberem que assim como uma senhora que tem cantina põe a sua filha a vender, acho que os pastores deveriam ensinar os seus filhos a servir no ministério. 

Não a serem necessariamente pastores, mas a fazerem os trabalhos até braçais que os faça parte do ministério. Hoje pela graça de DEUS é a minha esposa quem faz a minha agenda, ela é a minha secretária hoje, amanhã vai chegar o tempo da Aniela e da Zolana. Porque tem vezes que o ministério ocupa tanto o pai que os filhos ficam com ciúmes, alguns dizem perdemos o nosso pai para a igreja, outras dizem que a igreja roubou o meu marido. 

 

Que tal eu fazer intensamente o trabalho com a igreja e fazer da minha família também parte dessa igreja? Eles serão parte do pastorado do pastor, essa minha sugestão não é para deixar depois um meu filho como pastor da igreja futuramente. É apenas para fazer parte do ministério comigo enquanto eu estiver a trabalhar. Se o meu filho crescer e DEUS lhe chamar que ele faça o seu ministério, a não ser que seu chamado seja continuar com o meu, mas se esse não for o caso não posso obrigar nem esforçar os meus filhos. 

Infelizmente já ouvi essa conversa de todos os cantos, pessoas dizerem prepara o teu filho para ser teu sucessor, e muitas vezes esses filhos não são nem capacitados e nem sequer chamados por DEUS. Eu não matarei o meu filho nem o colocarei num perigo desses, a não ser que DEUS os tenha chamado e eu saiba claramente sobre isso.

 

R.S – Qual é o seu maior desafio hoje?

 

S.L – Eu penso que é me manter, e uma das coisas que eu confesso é me manter imaculado, firme e com um bom testemunho. Porque sempre que ouço histórias de gigantes que destruíram tanta coisa grandiosa por causa da imoralidade ou da ganância do dinheiro, por se ensoberbecerem e se envolverem com a fama, me leva a entender cada vez mais que a nossa maior relação deve ser com DEUS.

 

A fama, o dinheiro e mulheres para nós os homens e homens para as mulheres são grandes tentações. E todos os dias respiramos neste ar sensualidade e a pressão desse mundo. Eu aconselho a todos os jovens a ter na esposa uma amiga para conversar sobre esses desafios. Eu hoje falo com a minha esposa dessas coisas até quando estamos no carro e começo a tornar esse assunto normal de se falar. 

 

Penso que quanto mais denunciamos as nossas fraquezas mais nos fortalecemos. Temos que ter pessoas com quem falamos das nossas fraquezas quando elas estão a vir. É uma das formas de resistir ao diabo e ele fugir. Penso que não devemos deixar crescer em nossos corações essas ervas daninhas desses erros e falhas, fraquezas. Quem não confessa quando esteve quase a falhar vai confessar o dia que já falhou, precisamos ter atenção a esses aspectos.

 

R.S – Sente que o maior obstáculo dessa geração é a imoralidade?

 

S.L – Sim. Infelizmente já existem no nosso meio pessoas que querem alegar que não existe pecado, há alguns até a aconselharem pastores a fazer e esconder bem. Só que isso te traz uma máscara diante das pessoas, mas você fica nu diante de DEUS, és um hipócrita da pior espécie. Penso que o caminho não é esconder bem, que DEUS nos ajude a todos, estou a falar aqui não apenas para apontar erros de quem quer que seja, mas até para apontar os meus, estou a falar também de mim. 

 

Falo com os meus amigos e com o meu mestre Jorge Baptista sobre isso, as pessoas as vezes não falam do que elas sentem até descobrirem que alguém do nível deles ou superior do que ele já sentiu o mesmo. As vezes falo de fraquezas com pessoas não porque eu esteja a lutar com elas, mas porque as vezes quero ajudar. 

 

Elias era também sujeito as mesmas paixões do que nós. Estamos num fogo cruzado todos nós e precisamos resistir, mas posso lhe garantir que muitos dessa peneira da imoralidade não vão passar, serão excluídos com o tempo. Que DEUS nos segure e que amanhã possamos ler essa entrevista depois de 20 anos e ainda estar aqui, aquele que está de pé se cuide para que não caia. Nossos maiores cuidados devem ser com a imoralidade, a soberba, o glamour. 

Ser pastor não é ter fato bonito. Quem compra fato veste, mas quem compra livro investe, o pastor tem que investir mais do que vestir. Vestir é bom, mas investir é muito melhor!

Entrevista: José Kundy

Fotografo: Ailton Silva

Comente

Instagram did not return a 200.