Não há ministério de homens e de mulheres! – Pastora Antonia Cadete

É a primeira grande entrevista desde que fundou o Ministério Jesus Cristo vive. Antônia Cadete recebeu-nos na Igreja e não fugiu a nenhuma pergunta.
Falou sobre a sua saída da Igreja Metodista Unida, o agir do Espírito Santo na sua vida e o estado da relação entre a Igreja e o Governo no âmbito do novo decreto que regulamenta a actividade religiosa.
Perto de ver o seu ministério completar dez anos de existência, a Pastora Antônia afirmou que “a data ficará marcada por um crescimento exponencial da obra.”

Maria Antônia Pereira Cadete é o seu nome completo, mais conhecida como Pastora Antônia. Nasceu em Luanda há 44 anos e é solteira por opção.

Revista Supremo (R.S) – Como é que começa a sua vida Cristã?

Maria Cadete (M.C) – Começou em 1995 na Igreja Metodista, com muita oração e jejum, mas por curiosidade, porque apesar de estar na igreja eu era mundana e com convicções lógicas muito fortes. Essas experiências exercitaram o meu ser de modos que passou a ser como um alimento desejado até que no ano de 2000 decidi me entregar totalmente a Deus.

R.S – Alguma coisa na Igreja Metodista a restringia de ter maior intimidade com Deus?

M.C – A minha família saiu já em 1992, mas eu fiquei até 2003. Porque eu não acreditava na necessidade de sair da Igreja Metodista para ser mais responsável e devota, mas em função das restrições e das chamadas de atenção pela forma como orava e pelos conceitos que trazia fruto dos conhecimentos bíblicos, decidi sair. Porque nós não devemos passar por cima das autoridades e os meus líderes diziam que eu não podia fazer, mas eu fazia conforme a Bíblia me orienta.

“Porque nós não devemos passar por cima das autoridades e os meus líderes diziam que eu não podia fazer, mas eu fazia conforme a Bíblia me orienta.”

R.S – Sentiu que o poder do Espírito Santo que está em si estava oprimido?

M.C – Sim, é mesmo isso! Tanto que não ficou apenas pelas chamadas de atenção. Enquanto vice-presidente da Junta Administrativa da Igreja Metodista eu fui alvo de agressões verbais. Então fui ter com o Pastor e fiz uma carta a pedir para sair. Não recebi qualquer resposta, mas fiz a carta por reconhecer as autoridades.

R.S – Depois da saída como é que continuou a caminhada?

M.C – Quando sai da Igreja Metodista fiquei quatro semanas em casa. Eu sentia que havia algo de Deus no meu coração mas eu precisava definir o que era aquilo. Fui ter com os pastores da Igreja Evangélica onde estava a minha família e pedi uma reunião para que o presbitério me ouvisse, porque eu gosto de dar passos firmes. Eles receberam-me e eu disse: Eu estou aqui convosco mas não por muito tempo porque sinto que Deus tem algo preparado para mim, mas até que Deus me fale com exactidão eu estarei convosco. Eles não acreditaram que eu fosse ficar por pouco tempo, mas aconteceu! E no tempo certo dei o passo a seguir.

R.S – Houve nesse período alguma experiência com o Espírito Santo que lhe tenha marcado?

M.C – A primeira experiência pessoal que tive foi do Anjo do Senhor que me acompanhava, sempre que eu voltasse do trabalho sentia passos no teto do meu quarto mas eu pensava que fosse um espírito mau e repreendia. Até que um dia deitada na cama esse anjo me envolveu e disse: Eu não sou um espírito mau, eu sou o anjo que te acompanha, Deus me enviou para ser teu amigo e protector.

Outra experiência aconteceu quando eu deitada na cama senti as minhas mãos e pernas a queimarem como chamas de fogo, nesse momento percebi que aquela presença já não estava ao meu lado, estava em mim.

R.S – Como é que começa o Ministério Jesus Cristo vive?

M.C – Num dia do mês de Novembro de 2008 às 12 horas eu estava em oração, Deus me apareceu dizendo que eu tinha que fazer 40 dias de jejum.

Em fevereiro de 2009, fiz um aniversário de despedida do mundo, depois disso tudo começou a mudar, Deus veio em mim com toda a convicção, e comecei no dia 20 de Junho do mesmo ano o retiro de 40 dias de jejum que Deus orientou, levei apenas vinte litros de água que acabou antes do fim do retiro e permaneci os outros dias alimentada pela fé. Entrei em comunhão com Deus e ele me disse: apartir de hoje és Pastora.

A seguir, Deus me orientou a sair do emprego porque seria impossível começar o Ministério e continuar no emprego. Quando comecei o Ministério não tinha nada! Deus me ensinou a viver pela fé.

R.S – Porquê Ministério Jesus Cristo Vive?

M.C – Em um retiro na floresta, vieram cães e porcos muito bravos e fizeram uma roda a minha volta, naquele momento compreendi que era uma luta e o espírito santo me dirigiu a orar com as seguintes palavras: Hosana nas alturas Jesus Cristo vive é meu Senhor. Por outra, eu sempre pensei que não podia ter um ministério com a placa dissociada de Jesus Cristo, porque essa obra é dele.

R.S – Quantos centros e membros tem o Ministério actualmente?

M.C – Nós estamos com quatro templos, e temos menos de quinhentos membros.

São quase dez anos de existência e eu tenho um propósito muito firme, não se prende no meu objetivo mas no que Deus trouxe para mim. Deus me trouxe a convicção de crescimento salutar, onde não tem técnicas para adquirir membros. Eu digo que a Igreja é como um ser vivo, quando nós nascemos os membros vêm connosco. Eu primo essencialmente pelo ensino da palavra que é a semente. Eu acredito que a minha igreja é grande por causa daquilo que Deus me deu para ensinar.

Na minha dimensão eu posso ver menos de quinhentos membros, mas pela dimensão da palavra vejo Deus por meio de mim a fazer uma igreja muito grande em Angola. Não tenho pressa! Meu objetivo é crescer como Jesus. ELE tinha multidões que o seguiam mas apenas doze discípulos que receberam a missão de trazer a Igreja até nós.

“Eu digo que a Igreja é como um ser vivo, quando nós nascemos os membros vêm connosco.”

R.S – Podemos dizer que a base deste Ministério é a palavra?

M.C – A base é a palavra. A palavra! A palavra e a palavra.

R.S – As igrejas vivem um período conturbado na sua relação com o Estado. Como é que o Ministério Jesus Cristo Vive encara esse momento?

M.C – Primeiro deixa-me dizer que Jesus deixou coisas muito específicas. O problema é que as igrejas esqueceram a Bíblia, as Igrejas estão distraídas com os milagres. Para mim, isso não é problema meu, é problema de Jesus. Porque ele disse por causa dele seremos perseguidos, eu não sou o dono da Igreja, eu não tenho que me preocupar, asseguro-vos que estou tranquila. O estado tem o seu papel a desenvolver, e nós oramos pelo estado porque a Bíblia assim orienta.

Gostaria que os meus irmãos em vez de aderirem a manifestações como se não tivéssemos Deus, pudessem lembrar de Daniel, porque na altura saiu também um decreto do rei e Daniel enfrentou o decreto e venceu. Estou certa que o estado vai fazer a parte dele e a minha parte é perseverar e guardar a palavra até ao fim, ser fiel até a morte e terei a vitória com certeza.

R.S – Há ainda um certo cepticismo em relação a Mulheres que lideram igrejas, como é que a Pastora encara essa questão?

M.C – Uma das coisas que eu acredito é que o Ministério não é meu. Eu não tenho Ministério, eu sou um vaso usado por Deus. “Eu também prego muito contra o feminismo, enquanto pensares que estás a vir desafiar os homens, no Ministério você não terá sucesso.”

Porque nós temos que ser como as estrelas, a Bíblia diz que uma estrela difere de outra estrela em glória. Eu não estou aqui para ter um ministério pessoal, eu sou um vaso. Eu não sou mulher a ministrar, eu sou um vaso a ministrar.

Alguém me disse: É difícil ver um Ministério de mulher passar de cinco anos. Eu respondi que esse ministério não é de mulher, esse ministério é de Jesus Cristo. Andamos enganados, aqui não há ministérios nem de mulher nem de homens, aqui só tem ministério de Jesus Cristo.

R.S – Acha que essa postura inibe as mulheres no Ministério?

M.C – A fé não se inibe. Quando uma mulher segue a palavra de Deus ela sabe que tudo que é de Deus lhe vai alcançar.

Uma mulher que sente-se inibida porque alguém não quer lhe deixar pregar essa mulher quer aparecer e tudo que quer aparecer Deus extingue.

R.S – Existe a ideia de que hoje abrem-se igrejas para ganhar dinheiro. Como é que vê esse assunto?

M.C – Devemos como homens de Deus ter muita cautela, porque o dinheiro vicia.

Quando comecei o ministério, nos primeiros cinco anos eu controlava o dinheiro apesar de ter um tesoureiro, mas quando comecei a me ver a querer comprar coisas para mim eu entreguei essa responsabilidade a outras pessoas, porque o dinheiro vicia. Alguns pastores me disseram que o dinheiro do dízimo é todo para mim, e eu até acredito que seja! Mas se o meu ministério não é meu, então eu tenho que retribuir ao dono da obra. 

Por isso, sempre que os nossos dízimos não vão para as obras da igreja nós apoiamos órfãos e viúvas. Invisto naquele que está necessitando.Desencorajo os líderes de igrejas a manusear a tesouraria para evitar a concupiscência dos olhos, porque o dinheiro gosta de ser Senhor e precisamos ter muita cautela com isso.

R.S – Tendo em conta o momento que se vive, que mensagem quer deixar as igrejas?

M.C – Jesus disse: se me perseguiram a mim vós também sereis perseguidos. Deixa Jesus ser o foco do teu Ministério e não terá qualquer coisa que constrangerá.

“Jesus foi na cruz, achas que a pessoa que venceu a morte não vai vencer um ataque?.”

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