“Me alegro por ter ajudado o meu esposo na caminhada!” – Diaconisa Constância Panzo

Durante quarenta e três anos foi a fiel adjutora do Pastor fundador do Ministério Ebenezer da Assembleia de Deus Pentecostal, o já falecido Reverendo Fernando Manuel Panzo.Nesta entrevista a Revista Supremo, Constância Panzo conta-nos a sua trajetória de vida e dá o testemunho  de  um homem que ficou conhecido pela forma intensa de buscar e servir a Deus.

R.S: Como entrou para a vida Cristã?

C.P: Eu cresci num lar cristão. Meu Pai era Pastor na província do Kwanza-Sul, município do Porto Amboim, estive sempre na Igreja, cantando nos grupos corais e falando poesias. Aos 17 anos sai do Porto Amboim para a província de Luanda para ficar em casa dos meus tios que também eram pastores.  Concluí o ensino médio mas não tinha possibilidade para ingressar no ensino superior, por isso fiz o curso profissional de corte e costura, mas sempre frequentando a Igreja.
 
R.S: Como surge na sua vida o Pastor Fernando Panzo, em memória?

C.P: Aos 22 anos Deus abriu a porta de casamento para mim. Eu gostava muito de cantar, então um dia convidaram-me para um culto numa congregação na ilha de Luanda, eu fui e cantei, depois de cantar, os jovens da igreja pediram para ficar porque havia um jovem que queria falar comigo, e era o jovem Fernando Manuel Panzo. Nunca o tinha visto antes daquele dia, nunca tínhamos falado.

R.S: Como foi esse primeiro encontro?

C.P: Foi estranho! (Risos). Porque ele disse logo ” olha jovem, eu te amo.” Eu respondi: Me amas como? Eu nunca te vi! Você me viu aonde? Então não dei importância a breve conversa e fui para casa. Depois de uma semana recebo das mãos de um Pastor um envelope, este envelope tinha um desenho de dois corações e dentro deles estava escrito “EU TE AMO. QUERO QUE VOCÊ SEJA MINHA ESPOSA E MÃE DOS MEUS FILHOS.”
R.S: Qual foi a sua reação naquele momento?

C.P: Liguei para o Pastor que entregou a encomenda e disse que queria me encontrar com o Jovem. No dia seguinte as 12 horas nos encontramos no Kinaxixi próximo ao meu local de trabalho, onde eu exercia a função de modista. Procurei saber quem era ele, ele se apresentou e me disse: ” Quando eu vi a jovem a cantar o meu coração se alegrou muito e Deus disse: Esta será a tua esposa e mãe dos teus filhos.”
 
R.S: Como reagiu a essa declaração?
C.P: Fiquei surpresa! Achei que não era eu, que me estava a confundir com outra pessoa, Mas lhe disse que ia orar. Fui para casa e orei perguntando a Deus se era mesmo ele ou haveria de ser outro. Depois da oração adormeci, e vi que veio ele com um vestido de noiva e vestiu-me, num cenário que parecia uma praia com uma grande festa. Despertei e disse: Deus, seja feita a tua vontade e muda qualquer desejo contrário. Daí em diante, pedi que ele fosse ao encontro dos meus tios para manifestar o seu interesse, e ele fez isso. Por carta, os meus tios contactaram os meus pais em Porto Amboim, nessa carta eu alertei que se não aceitassem o jovem Fernando Manuel Panzo eu iria para a Igreja Católica e me tornaria madre. Graças a Deus concordaram e em 1975 fomos ao Porto Amboim e nos casamos.
 

R.S: Como foram todos esses anos ao lado de um homem que dedicou a sua vida ao Ministério Cristão?

 

C.P: Foram 43 anos juntos, tivemos dez filhos. Foi uma benção maravilhosa. Foi um homem muito atencioso, carinhoso, amoroso e acima de tudo homem de Deus. 

“Quando casamos ele tinha 27 anos de idade e eu já lhe via subindo o monte, permanecia diversos dias lá, sem comer e sem beber. Em casa ele tinha um quarto de oração e jejum”

 

R.S: Naquela época qual foi o acto de fé do seu esposo que mais lhe marcou?

 

C.P: Ele ia para a cidade e recolhia os malucos que tivessem na rua, trazia para casa e orava muitas vezes durante dois dias, depois da libertação, ele cortava o cabelo deles e colocava roupa limpa. Alguns desses homens estão até hoje na Assembleia de Deus Pentecostal seguindo o caminho do SENHOR. Foi um homem muito usado por Deus!

 

R.S: Quando é que ele foi consagrado para trabalhar efectivamente no Ministério?

 

C.P: Aos 29 anos ele foi consagrado a evangelista pelo Ministério Maculusso da Assembleia de Deus Pentecostal (ADP). Trabalhava ao lado do Pastor Carvalho, esse Pastor lhe mandou sair para evangelizar.  Porque é hoje que vemos Evangelista sentando no altar, antes não era assim! Então, Deus lhe orientou que fosse para o Bairro da Boavista, lá havia um espaço onde funcionava antigamente uma salga, era ali onde cultuávamos.
Fomos evangelizando e o povo que seguia a palavra crescia rapidamente e em pouco tempo já não havia espaço naquele lugar. Então, na altura, ele solicitou um templo que pertencia a Igreja Católica lá na Boavista e a igreja Católica aceitou ceder o espaço, ficamos ali algum tempo, até que a Igreja Católica precisou reaver o lugar. A liderança do Ministério Maculusso, vendo a maneira como Deus o abençoava, porque a medida que ele evangelizava a obra ficava maior, decidiu que o melhor era dar autonomia. Nessa altura, foi dada autonomia ao Pastor Fernando Manuel Panzo, Pastor Adão Malúa e o Pastor Araújo. Então, ele conseguiu o terreno no Ngw-anhá, onde está hoje a Igreja Matriz do Ministério Ebenezer. Uma obra que não parou de crescer até aos dias de hoje, em que conta com milhares de membros em mais de setenta centros. Foi de facto um homem temente a Deus e cheio do espírito Santo!

R.S: Quando se fala da Mamã Constância, sempre se tem como referência os sacrifícios consentidos em prol do Ministério do seu falecido esposo. Fale-nos um pouco sobre esses momentos?

C.P: Os sacrifícios consentidos ao longo dos 43 anos em quem vivemos juntos, eu aprendi desde criança, porque vi a maneira como a minha mãe tratava o meu Pai, ela era o suporte Espiritual do meu pai em oração, jejum e conselhos.

R.S: Os pregadores que passam pelo altar do Ebenezer, falam sobre a unção que transborda naquele lugar. Qual é o segredo?

C.P: O Pastor Panzo, em memória, nunca deixou de buscar a Deus, ele e outros pastores faziam as vezes 40 dias fechados em oração e jejum, consagrando a igreja, o altar e o povo diante de Deus. Ele buscava muitas vezes ouvir a Deus, tanto que a planta arquitectónica desse coliseu do Instituto Bíblico de Angola (IBA) ele recebeu em oração no monte.

R.S: Como foram os últimos dias de vida do Pastor Panzo?

C.P: Antes da sua viagem para Portugal, ele reuniu os filhos e disse: ” Eu vou, mas não sei se volto, porque só Deus sabe o dia de partida de cada um. Pela maneira como me sinto, não sei se estarei de regresso, por isso, tudo o que eu vos dei, tanto na área Espiritual, como na área social, cada um segura, não deixem perder o que eu vos dei!”

Já em Portugal ele pediu o seguinte: ” Não quero morrer aqui, quero morrer em Angola. Chamou a mim e os dois filhos que estavam lá connosco e recomendou: ” Eu vou partir, o meu óbito não será em casa, porque tenho muitos amigos. Levem o meu corpo no Complexo Nacional, é lá onde se vai realizar o meu óbito, eu vou com Deus, eu vou com o Senhor, tenham Paz, eu vos dou a Paz, fiquem com a Paz do Senhor, eu vejo anjos, já vieram a minha busca.”

No dia seguinte, apanhamos o vôo de regresso a Angola, ele veio já deitado, conversamos apenas um pouco e quando aterramos em Luanda ele já não estava entre nós. Posso dizer que, ele partiu para a eternidade deixando paz e tranquilidade na família.
 
Entrevista: Gerson Santos/ José Kundy
Fotografias: Ailton Silva/ Kelvin Cardoso

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